Sobre “Um, dois e já”, de Inés Bortagaray

Viajei bastante de carro durante a minha infância. Horas e horas de viagens, ansioso no banco de trás do carro, perguntando mil vez se já estava chegando. Uma criança insuportável, talvez rs.

A leitura do livro “Um, dois e já”, da uruguaia Inés Bortagaray, fez com que eu me lembrasse de vários detalhes desses passeios.

um dois e já resenha

Esta escritora nasceu em 1975, na cidade de Salto, a segunda maior do Uruguai. Antes do livro “Um, dois e já” (“Prontos, listos, ya” – 2006), ela publicou uma coletânea de contos chamada “Ahora tendré que matarte” (2001).

Inés também é roteirista e participou da produção de três filmes:  “Una novia errante” (2007), “La vida útil” (2010) e “Mujer conejo” (2013).

Ao que parece, somente seu último livro foi publicado no Brasil. A edição é da (falecida) Cosac Naify e, como era costumeiro nesta editora, possui algumas peculiaridades. No caso, o livro contém as folhas na cor azul, mais especificamente num azul bem clarinho.

Confesso que não compreendi o simbolismo – se é que teve algum – por trás dessa escolha. No entanto, para mim, foi inevitável imaginar que tivesse alguma coisa haver com a coloração da própria bandeira uruguaia.

Em “Um, dois e já” temos a história de uma viagem em família na perspectiva de uma criança. Um casal e seus quatro filhos (três meninas e um menino) saem de sua cidade e viajam para para algum lugar no litoral.

Uma das filhas – neste caso, a irmã do meio – é a narradora do livro. Do início ao fim acompanhamos os pensamentos desta menina, que variam desde a contagem dos postes ou vacas na beira da estrada até lembranças de sua melhor amiga.

O texto transmite a maneira ágil e repetitiva de pensar desta menina, fisgando o leitor logo na primeira linha.

Esses pensamentos foram tão bem construídos pela autora que criam, de fato, a sensação de que estamos dentro da mente de uma criança.

Durante a viagem, as situações pela qual esta família passa são das mais banais possíveis. Apertadas dentro de um carro, as quatro crianças brigam para conseguir um lugar na janela e tentam esquecer o tédio através de brincadeiras simples, como, por exemplo, se encarar para ver quem dá uma risada primeiro.

Os pais, na parte da frente do carro, parecem vivenciar uma situação oposta, conversando tranquilamente e ouvindo música, enquanto comem e oferecem algumas empanadas para os filhos.

Tudo isso nos é apresentado com base no ponto de vista da filha.

Um ponto interessante e bastante divertido desta obra envolve a rica maneira da “menina narradora” imaginar as coisas. Muitas vezes, por não entender algo, ela conclui do seu jeito e usa da própria imaginação para se distrair. Um exemplo disso ocorre quando ela presta atenção no rádio:

“O locutor da voz grave me dá dor de barriga. Fico com medo do jeito que ele fala; fala de tarifas. Penso nos tarifas: uma tribo de aborígenes tarifas desce correndo a encosta de um monte parecido com esses das silhuetas escuras na estrada. Os tarifas descem correndo, batendo com a mão na boca e gritando que nem selvagens. Meu irmão atira uma flecha no chefe dos tarifas e acerta na testa dele. Ele cai com os olhos vazios. Eu subo num galho alto de uma árvore do vale e vejo os tarifas avançando que nem formigas que avançam em multidão. São formigas, de repente. Não me assusto. Tensiono o arco e a flecha dispara e atravessa a garganta de uma tarifa horripilante. É a esposa do chefe. Me vanglorio. Estamos conseguindo nos defender.” (P.80)

A história, por mais simples que seja, possui alguns mistérios. Não sabemos o nome de nenhum membro da família e também o real motivo desta viagem.

Alguns detalhes, no entanto, favorecem o leitor na criação de suposições.

Ao que parece, o recorte temporal em que estes personagens estão inseridos é o do período da ditadura civil-militar uruguaia, ou seja, algo entre 1973 e 1985.

Podemos imaginar isso através de um trecho em que a narradora reflete sobre quando seus pais participaram de uma manifestação a favor do sistema democrático:

“Outro dia meus pais foram a uma manifestação pela democracia e Eva estava comigo e fomos todos juntos e na praça pulamos ao som de quem não pula quer censura.” (P.47)

Levando em conta que os pais eram, provavelmente, opositores do governo vigente, não dá para confirmar se esta viagem era um simples passeio em família ou uma espécie de fuga. Concluir isso fica a cargo do leitor. 🙂

Ler essa pequena obra, de apenas 96 páginas, foi uma experiência interessante e, até posso dizer, inesperada.

Trata-se de um livro que faz o leitor lembrar de sua própria infância.

Se você já fez passeios em família quando era criança, certamente se reconhecerá em algum momento dessa história, seja no tédio que passou ao esperar a viagem terminar, nas fotos que tirou ou nas paradas que seus pais (ou avós, tios, pais de amigos etc) fizeram para ir ao banheiro, comer alguma coisa ou esticar as pernas.

Se você não fez viagens em família, então se reconhecerá simplesmente na própria infância da narradora, com suas angústias, seus temores em seus pequenos momentos de felicidade.

Inés Bortagaray consegue, através do livro “Um, dois e já”, cultivar uma forte sensação de nostalgia ao tocar em nossa memória afetiva.


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