Sobre Demian, de Hermann Hesse

“A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo…” (p.08)

Resenha Demian

Este pequeno livro, escrito pelo alemão Hermann Hesse (prêmio Nobel de Literatura), toca no tema da busca pelo autoconhecimento dentro dos limites impostos pela família, sociedade e Estado.

A história é contada por Emil Sinclair, protagonista, que fala sobre seu desenvolvimento pessoal desde a infância até o início da vida adulta.

Em “Demian”, o autor se inspira tanto nas suas experiência com a psicanálise quanto em filósofos como Friedrich Nietzsche.

Na época de seu lançamento, Hesse vivia na Suíça e era considerado, pelos alemães, como um traidor, pois defendera publicamente a paz durante os anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

O livro fez muito sucesso em toda a Europa mas, devido a impopularidade de Hemann Hesse na Alemanha, foi publicado por lá como se tivesse sido escrito por “Emil Sinclair”, o protagonista da obra.

Curiosamente “Demian” também foi um sucesso na Alemanha, chegando, inclusive, a ser premiado com o Fontane-Preis. Obrigado a admitir a autoria do livro, Hermann Hesse teve que devolver o prêmio.

Hermann Hesse
Hermann Hesse, 1927
  • O início

Quando criança, Sinclair teve uma bastante conforto, morando com sua família numa bela casa e estudando em colégios particulares.

Sendo filho de pais religiosos, foi influenciado por uma visão de mundo comandada pelas palavras da Bíblia, baseada na prática do perdão, da confissão e das boas intenções diante dos outros.

Num determinado dia, Sinclair e seus amigos são abordados por Franz Kromer, um garoto que, nas palavras dele, era “um rapazinho dos seus 13 anos, corpulento e grosseiro, filho de um alfaiate e aluno da escola pública”.

Franz Kromer acompanha o grupo e convence todos de irem com ele até um depósito de lixo para achar objetos aproveitáveis no meio dos escombros. Lá, Kromer usa de sua autoridade para que os garotos procurassem as coisas, enquanto ele mesmo quase nada fazia, apenas ficava verificando se o que foi encontrado tinha ou não utilidade.

Terminada essa tarefa, que para o protagonista foi bastante incômoda, os três sentam no chão e descansam. Durante esse momento, todos menos Sinclair começam a se gabar de coisas maldosas ou corajosas que haviam feito.

Como nada tinha para dizer mas não queria ficar de fora, Sinclair inventa um suposto roubo de maçãs que teria realizado.

Essa pequena mentira, cujo objetivo era apenas contar vantagem, ganha proporções inimagináveis. Franz Kromer, pouco depois, começa a chantagear Sinclair, ameaçando expor o protagonista como o ladrão das maçãs caso este não lhe desse dinheiro e realizasse uma série de tarefas.

A agonia e desespero de Sinclair apenas termina quando conhece Max Demian, um novo colega de classe, cujas atitudes eram incomuns para uma criança, sendo bastante seguro de si, decidido e pensativo.

Demian se interessa por Sinclair e, acidentalmente, esbarra com o protagonista pouco depois de mais um incômodo encontro deste com Franz Kromer. Indagando sobre o que estava acontecendo, Demian consegue descobrir que Sinclair estava sendo incomodado pelo outro menino.

Pouco tempo depois, sem que saibamos exatamente o real motivo, Franz Kromer para de atormentar Sinclair. Ao que parece, Demian fez alguma coisa que deixou Kromer temeroso.

Já o protagonista, em contrapartida, fica totalmente aliviado com o fim daquela constrangedora situação.

A partir dai, Max Demian se torna, além de amigo, uma grande influência para Sinclair.

  • A realidade dividida em duas partes

Tal experiência com Franz Kromer foi muito importante para esclarecer ao protagonista que a realidade poderia ser dividida em duas fatias:

  1.  Uma das partes é o “mundo da luz” ou “mundo luminoso”. Nela temos os bons costumes, a limpeza, a religiosidade, o amor, a educação etc. Um mundo de regras que deixava a vida em ordem e previsível. No caso de Sinclair, esse mundo diz respeito ao universo familiar, no interior de casa com seus pais e suas irmãs.
  2. A outra parte é o “mundo sombrio”. Nessa realidade, os odores eram diferentes, as maneiras de agir e de pensar também. Haviam coisas atraentes e coisas monstruosas. Havia a prisão, a embriaguez, os suicídios, os assaltos, assim como também havia a liberdade de ideias.

Entender isso foi fundamental para acabar com a inocência de Sinclair diante do mundo.

Já o recente contato com Demian, foi o ponto de partida para uma busca pelo auto conhecimento.

Demian 1
1º edição de Demian. Repare que não está escrito “Hermann Hesse” na capa, mas sim “Emil Sinclair”, protagonista da obra.
  •  Demian

Demian pensava de uma maneira completamente fora do habitual. Filosofava sobre a vida, sobre a busca de si mesmo, questionava sem o menor pudor algumas passagens da Bíblia, entre outras coisas.

Ele vivia “fora da casca” e, como observamos ao longo do texto, incentiva, indiretamente, que Sinclair viva do mesmo modo.

Num dos pontos centrais da obra, Demian começa a falar sobre Deus e o diabo. As palavras dele fascinam na mesma medida que assustam Sinclair.

Vejamos o trecho:

“Mas ouve-me ainda um momento: esse é um dos pontos em que se vê mais claramente os defeitos da religião. Esse Deus da antiga e da nova Aliança é, antes de tudo, uma figura extraordinária, mas não o que realmente deveria ser. Representa o bom, o nobre, o paternal, o belo e também o elevado e o sentimental… está bem! Mas o mundo se compõe também de outras coisas. E todas essas coisas são simplesmente atribuídas ao Diabo; toda essa parte do mundo, toda essa outra metade é encoberta e silenciada. Glorifica-se a Deus como o Pai de toda a vida, ao mesmo tempo em que se oculta e se silencia a vida sexual, fonte e substrato da própria vida, declarando-a pecado e obra do Demônio. Não faço a menor objeção a que se adore esse Deus Jeová. Mas creio que devemos adorar e santificar o mundo inteiro em sua plenitude total, e não apenas essa metade oficial, artificialmente dissociada. Portanto, ao lado do culto de Deus devíamos celebrar o culto ao Demônio. Isso seria o certo. Ou mesmo criar um deus que integrasse em si também o demônio e diante do qual não tivéssemos que cerrar os olhos para não ver as coisas mais naturais do mundo.” (p.62)

Sinclair se impressiona pois isso reflete, justamente, o que ele mesmo imaginava: que o mundo era dividido em luz e sombra.

E o principal: o que Demian diz é que não precisamos viver somente de um lado, mas para conhecer a si mesmo, é necessário habitar as duas partes da realidade. É necessário cultuar tanto Deus, quanto o demônio.

Para Demian, basta começar a pensar. A partir do momento em que o homem reflete sobre as coisas, jamais conseguirá fechar os olhos para a existência desse outro mundo.

  • A busca pelo autoconhecimento

As conversas com Demian foram fundamentais para Sinclair iniciar essa procura de si mesmo.

No entanto, inicialmente, o protagonista se vê bastante confuso sobre como proceder.

Já longe de Demian, em outra escola, Sinclair abraça o “mundo sombrio” e passa a ter uma vida boêmia, com bebedeiras até de madrugada, falsos amigos e problemas com os estudos.

Após ver uma bela mulher na rua (que resolve chamar de Beatrice), a pureza e serenidade do mundo da luz começa a retornar em seu pensamento e atitudes. Seu rendimento nos estudos melhora e Sinclair se torna uma pessoa mais solitária e reflexiva.

Essa contradição e confusão é atenuada após Sinclair receber uma mensagem de Demian, onde este cita Abraxás.

Sem saber direito o que é esse “Abraxás”, Sinclair procura descobrir seu significado. Apenas compreende bem após contato com um excêntrico organista de uma igreja chamado Pistorius, personagem que se torna uma espécie de “Demian substituto” para o protagonista.

Abraxás é uma figura que representa Deus e o demônio ao mesmo tempo. É uma síntese do mundo luminoso com o sombrio. De modo geral, Abraxás resume todo o pensamento sobre culto de Deus e do Diabo, citado anteriormente por Demian.

A partir desse conhecimento e de um contato mais frequente com Pistorius, Sinclair entende que tanto ele mesmo quanto qualquer outro ser humano é um ser total, que pode pensar da maneira que desejar, sem se limitar a apenas uma ou outra perspectiva. Todos os lados estão certos.

  • Demian, Sinclair e Eva

O contato com Demian retorna posteriormente. Sinclair já se encontra mais amadurecido e consciente da busca de si mesmo.

O protagonista conhece a mãe de Demian, chamada Eva, e se apaixona por ela. Esta, por sua vez, se torna uma mentora.

Os três (Sinclair, Demian e Eva) passam a conviver com grande frequência, trocando diversas reflexões e mantendo uma espécie de conexão espiritual.

O livro termina com a chegada da guerra, quando tanto Demian quanto Sinclair vão para os campos de batalha.

  • Por fim

O livro “Demian” é um Bildungsroman, termo alemão para “romance de formação”. Trata-se de um livro que apresenta um determinado período na vida de um personagem (no caso, Sinclair), expondo seu desenvolvimento psicológico, físico, moral etc.

O ponto central da obra é justamente a busca pelas razões últimas, ou seja, o homem na procura da felicidade em si mesmo.

Profundamente reflexivo, esse pequeno livro é bastante complexo, com parágrafos longos e poucos diálogos, o que pode provocar algum cansaço.

No entanto, isso não tira o mérito da obra, considerada um dos maiores clássicos da literatura alemã.



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