Sobre “Os mil outonos de Jacob de Zoet”, de David Mitchell

Já diziam por ai que viver perigosamente é comprar um livro somente pela capa.

Foi esse o meu caso quando lembro de “Os mil outonos de Jacob de Zoet”.

os mil outonos de jacob de zoetEntro na livraria, olho as novidades, olho as estantes de história, olho as estantes de literatura, o atendente olha para mim e pergunta “Quer uma ajuda?”, olho para o atendente e digo “Não, obrigado”, o atendente sai, olho novamente para as prateleiras e encontro o livro aqui citado, pego o exemplar, concluo que preciso dele e compro.

Simples assim.

Tenho certeza que muito leitor faz a mesma coisa. Por sorte, a consequência desse ato compulsivo não foi um desperdício. O livro é ótimo!

  • Sobre o autor

Antes de qualquer coisa, quem é esse tal de David Mitchell?

Vejamos:

David Mitchell nasceu em Southport (1969), no norte da Inglaterra. Linguista formado pela Universidade de Kent e escritor, já morou em diversos locais diferentes.

Viveu por 1 ano na Sicília, sul da Itália. Em seguida, se mudou para Hiroshima, Japão, lugar onde residiu por 8 anos como professor de inglês.

Após este período, retorna para a Inglaterra. Atualmente vive com sua esposa e filhos na região de Cork, Irlanda.

Possui duas nomeações para o Man Booker Prize, uma das premiações literárias mais importantes da atualidade.

Seu livro “Atlas de Nuvens” (Cloud Atlas, 2009) é considerado sua obra máxima, além de grande responsável pelo reconhecimento de David Mitchell como escritor best-seller.

  • Um pouco de história

“Os mil outonos de Jacob de Zoet”, publicado em 2010, é a quinta obra de David Mitchell. Em 2015, a editora Companhia das Letras trouxe o livro para o Brasil, com tradução de Daniel Galera.

Após algumas páginas de leitura já é possível constatar que o autor realizou uma vasta pesquisa histórica. A riqueza de elementos referentes ao Japão do século XIX é enorme e detalhada, sendo difícil definir o que é ficção e o que não é.

Antes de falar sobre o livro em si, acho importante apontar uns detalhes em relação ao contexto histórico em que o enredo se baseia:

Na história do Japão existiu um vasto período conhecido como Sakoku (鎖国 – na tradução literal, algo como “país acorrentado”), que vai do ano de 1639 até 1854.

Entre estes anos, o Japão estava quase que 99% fechado para o mundo. Isso quer dizer que um estrangeiro não poderia entrar no Japão, assim como um japonês não poderia sair de seu país.

Essa política radical de relações internacionais foi implantada pelo chamado Xogunato Tokugawa, uma longa ditadura feudal iniciada em 1600 e comandada, até 1868, pela família Tokugawa.

Isso impediu uma modernização mais eficiente do Japão no cenário mundial, fato que só veio a ocorrer de maneira acelerada após o fim desta política de isolamento.

Acontece que havia uma única nação com carta branca para, digamos assim, ter mais acesso ao território japonês: a Holanda.

O contato entre ambos os países era apenas permitido numa pequena ilha artificial conhecida como Dejima, na região costeira de Nagasaki.

Nesse aspecto, os holandeses tinham o privilégio e exclusividade de manter relações comerciais com o Japão, enquanto os japoneses conseguiam se atualizar, minimamente, no que diz respeito a tecnologia e medicina ocidental.

Dejima
Antiga pintura japonesa – Observadores holandeses na ilha de Dejima.
  • Sobre o livro

É justamente nesse contexto histórico que se desenvolve o livro.

Jacob de Zoet é um escriturário holandês que viaja para o Japão com o objetivo de investigar casos de corrupção na pequena ilha de Dejima. Jacob também deseja obter fortuna, de modo que consiga se casar com Anna, sua grande paixão.

No entanto, sua longa estadia na ilha não foi nada fácil. Os japoneses não o respeitam, assim como os holandeses que já estavam lá não gostam de saber que alguém anda investigando a vida dos outros em busca de práticas ilegais.

Sendo assim, Jacob fica num profundo isolamento, solitário numa ilha absurdamente distante de sua terra natal.

No entanto, ao longo da leitura, este se aproxima de alguns personagens interessantes, que cultivam nele um interesse maior pela, até então, pouco conhecida cultura japonesa.

Temos Ogawa Uzaemon, intérprete e guerreiro. Também temos Dr. Marinus, um médico excêntrico.

Através deste último Jacob conhece Aibagawa Orito, uma japonesa com parte do rosto queimado, que atua como parteira e por quem se apaixona.

Contudo, a relação amorosa entre japoneses e europeus é expressamente proibida, o que provoca grande angústia no protagonista.

Em determinado momento, Orito é raptada. Tal acontecimento provoca um desenrolar dramático na história.

  • Por fim

Jacob de Zoet, através do interesse criado tanto pela cultura quanto pela língua japonesa, consegue uma espécie de fuga para suas principais angústias.

É também um protagonista corajoso e sem exageros, que utiliza dos meios viáveis para alcançar os seus objetivos.

Já o livro, de maneira geral, ensina muita coisa tanto sobre a história do Japão quanto sobre os próprios japoneses.

Podemos observar, por exemplo, como a questão da honra é fundamental na cultura daquele país.

Isso fica bastante visível na reação do povo nipônico contra as práticas do imperialismo inglês, responsáveis por ameaçar as relações estabelecidas entre holandeses e japoneses.


“Os mil outonos de Jacob de Zoet” é uma espécie de thriller histórico e filosófico.

Nele temos: reflexões interessantes; momentos de suspense; momentos de ação, riqueza de detalhes históricos; amor; intrigas ; questões religiosas etc.

Trata-se do melhor tipo de livro: aquele que influencia e enriquece o leitor.

  • Os mil outonos de Jacob de Zoet – Resenha

  • Citações

“… o pensamento não tem pálpebras para fechar nem ouvidos para tapar…” (P.404)

“Os inimigos se aglomeram em volta do poder… como vespas em volta de um figo aberto.” (P.418)

“É preciso tomar cuidado na hora de entender o inimigo, Penhaligon pensa, para não correr o risco de passar para o lado dele.” (P.501)

“Este mundo, ele pensa, contém somente uma obra-prima, que é ele próprio.” (P.532)


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