A juventude peruana na obra “A Cidade e os Cachorros”, de Mario Vargas Llosa

A juventude peruana é o tema central da obra “A Cidade e os Cachorros”, de Mario Vargas Llosa, publicado pela editora Alfaguara.

juventude peruana

Lembro que estava realizando um cadastro de livros quando tive meu primeiro contato com uma obra do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Estava lá, camuflado, no meio de uma pilha de livros clássicos usados, quase todos publicados pelas editoras Abril ou Record.

Era uma edição pequena, capa dura, mas não ao ponto de ser considerada um pocket. O livro se chamava Batismo de Fogo. Fiquei curioso, era um escritor muito conhecido mas nunca havia lido quase nada dele, apenas alguns artigos no El País.

Comecei a folhear e, quando vi, estava na página 50 e poucos… Foi ótimo pois descobri um autor que nunca mais deixaria de acompanhar.

Passado alguns dias, resolvi procurar e comprar uma edição nova do tal livro. Não encontrava de modo algum. Pensei até que não tivessem reeditado. Era estranho, pois o que não faltam são livros do Vargas Llosa sendo lançados o tempo todo.

Descobri, pouco depois, que a obra havia sido publicada pela Alfaguara com um nome diferente: A Cidade e os Cachorros, seguindo a tradução exata do título original “La Ciudad y los Perros”.

Batismo de Fogo ou A Cidade e os Cachorros foi o responsável pelo Boom! na carreira desse escritor peruano. Foram três anos de trabalho para a conclusão do livro: começou a ser escrito no outono de 1958 e foi terminado em 1961. No prólogo do livro, o autor diz:

“Este é o livro que mais surpresas me preparou e graças ao qual comecei a sentir que se tornava realidade o sonho que eu alentava desde o tempo das calças curtas: chegar, um dia, a ser escritor.”

Sempre gostei de livros ou filmes que tratem de temas como juventude, colégio, internatos etc. Talvez meu interesse pelo livro tenha começado ai.

A história é sobre alguns cadetes do chamado Colégio Militar Leoncio Prado, localizado em Lima. Não existe apenas um narrador, mas sim vários.

O livro fala sobre as dificuldades e necessidades da juventude peruana, com suas angústias pessoais, problemas familiares ou dúvidas amorosas. De certo modo, dois “mundos”são introduzidos para o leitor: o da cidade, onde os jovens são livres, e o do colégio militar, onde prevalece um ambiente de brutalidade, com covardias frequentes, torturas físicas e psicológicas.

O termo cachorros, utilizado no título, se refere a maneira como os cadetes iniciantes eram chamados pelos mais experientes. Todos deveriam passar por uma espécie de batismo (daí a ideia de Batismo de Fogo), no caso, uma humilhação.

Do início ao fim, Vargas Llosa apresenta um colégio militar cujo sistema de rigidez, regras e punições é falho. Os alunos fogem, bebem, fumam, roubam, torturam ou ofendem os mais fracos.

O humor também faz parte da obra. Eu, particularmente, achei muito divertida a maneira como o escritor retrata os pensamentos dos seus protagonistas.

Na maioria dos livros, os pensamentos aparecem de maneira ordenada, com uma lógica de inicio, meio e fim, sem repetições.

Já Llosa coloca tudo junto, uma confusão proposital, de maneira que paramos para prestar atenção no modo louco que conversamos com nós mesmos.

Apenas critico o fato de que, por ter inúmeros narradores / protagonistas, o leitor possa se sentir confuso, inicialmente, em saber quem é quem. Mas conforme a leitura segue, esse problema termina.

É possível enxergar diversos elementos da sociedade peruana (e, porque não, da sociedade latino-americana?) no decorrer do livro. Destaco dois:

(1) No Leoncio Prado, diversos alunos das mais variadas origens estudavam juntos, tornando o ambiente uma espécie caldeirão cultural.

É retratado, por exemplo, o preconceito dos alunos nascidos na cidade grande para com os negros e com os “serranos”, ou seja, alunos de origem indígena e nascidos no interior. Um exemplo:

“- Quebrei um vidro – disse, sem levantar a voz.

As mãos do Jaguar vieram em sua direção como dois bólidos brancos e se incrustaram nas lapelas do casaco, que se cobriu de pregas. Cava cambaleou onde estava, mas não baixou a vista diante dos olhos do Jaguar, odiosos e fixos atrás das pestanas curvas.

– Serrano – murmurou devagar o Jaguar – Tinha que ser serrano. Se nos pegarem, juro que…

Continuava a segurá-lo pelas lapelas. Cava pôs as mãos sobre as do Jaguar. Tratou de afastá-las, sem violência.

– Solte! – disse o Jaguar. Cava sentiu na cara uma chuva invisível – Serrano!” (Pág. 15)

(2) Outro aspecto bastante ressaltado por Mario Vargas Llosa, mais relacionado à América Latina no geral, se refere as desigualdades sociais, e como elas são responsáveis pelos caminhos e destinos de cada um. Basta imaginar o futuro de Alberto, de família rica, em comparação com os demais.

Se você pretende iniciar a leitura das obras do Vargas Llosa e conhecer um pouco da complexa sociedade peruana, sem dúvida começar por A Cidade e os Cachorros será uma boa escolha.

Algumas características no estilo da escrita presentes nesse livro permanecem em outros, sendo uma ótima “introdução” para os demais.

A literatura peruana tem um ótimo nome na sua seleção de escritores, sendo este, inclusive, vencedor do Nobel de Literatura (2010), além de já ter recebido o Prêmio Cervantes (1994) e o Prêmio Príncipe de Astúrias (1986).


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